Só ele acredita que mesmo andando sujo, sem nome, deve manter sua alma limpa. De que adianta nome limpo e uma alma podre, se quem tem nome nobre não tem pena de menino pobre? Gente esnobe, ignora quem pede uma ajuda. Não ajuda, não estende as mãos, mas com as mãos afundam. Chamam ele de febem, tratam ele como escorias, são palavras que a criança vai levar na memória. Psiu, você ouviu? Tem alguém batendo palmas… é o moleque de rua parado em frente ao seu portão, pra viver ele tem alma, coração e um carrinho de papelão… Tem que ser ligeiro menino, mesmo sendo desprezado, mas que não seja um viciado ou um assassino. Você vai vencer esses momentos, você vai sobreviver e ainda vai dar bom exemplo. No meu tempo já existia, mas as chances eram poucas de ver um moleque com arma na mão e um baseado na boca, devendo pras bocas, infelizmente hoje é assim. Crianças maltratadas vira adolescente tão ruim. Por isso então não esquece não, tem um anjo em seu portão batendo palmas, continua batendo palma, vai lá atender da uma atenção pra esse moleque… Só vou resumir que o desprezo não é o caminho. Crianças nascem, perdem as asas, andam descalços, pisam nos espinhos. E você ignora um moleque de rua te pedindo pão, então você chora na mão do pivete que embaça na sua, te enquadra do nada com ferro na mão. Escute. Dê atenção ou vaza. Anjos crescem e perdem as asas, na revolta invadem as casas. Naquele mesmo portão onde um dia batia palmas, se a vida é um carma, talvez um dia ele volta com uma bíblia ou com uma arma.
Se hoje estou aqui é porque Deus não desistiu de mim.
Senhor, Deus. Essa noite eu não queria pedir nada, porque eu já pedi tanto e tanta coisa me foi dada. Saúde pra correr e proteção pelas calçada. Fui invisível pra cada alma mal intencionada, mas nessa madrugada, eu não me sinto bem. Todo mundo dormiu e eu preciso falar com alguém, esse silêncio me tira do trilho e ninguém melhor que o Pai pra escutar o desabafo do filho. Mó pilha… Talvez a culpa disso seja minha. Sei que o Senhor sempre intervem pra me manter na linha, pra que eu não vire entulho na caçamba, mas às vezes isso pesa e essa linha vira uma corda bamba. Como uma cobra anda, se rastejando, o mundo me quer assim, é que cada cachorro que se lamba. Caramba, fica difícil desse jeito. Olha tanto pra fora e não enxergo o meu próprio defeito. Um pecador, só… Carrega dor, só… Humano também chamado de sonhador, só. Que a colheita vem depois. Ando um passo por acerto e a cada erro, parece que vou dois. Eu não sou melhor que ninguém não. Eu não mereço mais que ninguém não. Só estou mantendo os meus passos no chão. Tudo o que peço nessa noite é perdão. Porque mil cairão… Mas eu não serei atingido. Teve aquela vez que quase morri afogado, e o Senhor me puxou quando já tinha me entregado. Eu merecia um puxão de orelha, fui babaca! Quando roubei anéis e uma corrente na barraca. Só pra mostrar pros meus amigos, moleque exibido, não tinha noção nenhuma do perigo. Ou daquela outra vez em que quase fui roubado, em vez disso, o que eu ganhei foi companhia até o mercado. Entende o recado, não sei o que eu fiz demais pra ser tão bem cuidado. Já estive todo errado, bolado de trocar os passos, quase caindo pro outro lado, mas sei que alguém me carregava nos braços. Me ofereceram crime, só que eu recusei. Me ofereceram farinha, só que eu recusei. Se a vontade era minha, eu não sei. Só sei que no vale da sombra e da morte eu fechei os olhos e passei. Só tenho agradecer cada dia e por me fazer maior do que qualquer problema. Tem quem não acredite em ti, enfim, eu acredito por saber que o Senhor também acredita em mim.